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Óculos. Pra uma miopia de cinema, volante e reconhecimento noturno de pessoas (nem sempre).
Também, os tais cor-de-rosa, pros dias de sol.
*...a gente nunca sabe quando o tempo vai virar, que tons tomarão o céu, tudo em volta...*
Faço o mesmo com palavras: ora em preto e branco, ora .pin.talgadas.
*Este blog pode ser visualizado em 3D. Solicite seu par azul e vermelho pelo perinzinha@gmail.com.
Desfrute da jornada! :)
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Terça-feira, Dezembro 13, 2005
Intimidade coletiva
Fiquei sabendo que um senhor de voz grave e terno sóbrio vai oferecer uns 5 paus no negócio a ser fechado; a mulher de jeito áspero tem um ótimo urologista pra indicar ao marido da amiga; e o "doutor" advogado que paga cafezinho aos súditos como forma de mostrar poder e cortesia passou horas no fórum atrás de solução praquela intricada pendência jurídica. Mas não, eu não conheço essas pessoas. Eram meus vizinhos de balcão na padaria, nos 10 minutos que levei para dar fim ao meu misto quente. Todos portavam com orgulho seus celulares e resolviam suas histórias sem nenhuma cautela no meio do movimento vespertino dos que buscam pão, leite e afins que matem a fome. Lugares públicos viraram mais públicos que nunca, e expõem realidades alheias como se o redor fosse composto de gente camarada. Já não se medem o volume da voz e o grau de intimidade do tema - meu telefone tocou, o papo é urgente e eu vou resolver agora, que os estranhos escutem meus métodos, minhas respostas.
Atender ligação na rua, no shopping, na fila há muito deixou de ser novidade tecnológica. Não sou a favor de que voltemos àqueles aparelhos pesados, com fio e um disco com furinhos que correspondem aos números para que se trave uma conversa pessoal. Mas episódios como esse me fazem pensar que a vida íntima deixou de sê-la (que palavra mais Jânio!), e que isso pouco importa pra maioria. Discurso furado (e atrasado) numa época de Orkuts e MSNs? Pode ser. É que a ficha cai aos poucos e, com a rapidez do mundo, não sabe muito bem escolher a hora.
Besteira pensar, no entanto, que isso tornou a humanidade mais próxima. Concluo, nas minhas voltas filosóficas solitárias, que estamos cada vez mais longe da verdade do outro - e, por que não, da nossa. Tudo isso são máscaras, refúgios, cavernas. Basta ter o último modelo de aparelho em punho para que seja simulada uma conversa a mais pomposa. Certa vez, um amigo fingia que dava ordens ao piloto do seu helicóptero (ambos imaginários) no meio da churrascaria: "Jarbas, me pegue às 18h no heliponto!" Fotos bem editadas e cria-se um perfil de semicelebridade. Palavras certas (ou emoticons engraçados) são suficientes para se manter um diálogo bacana. O olho - mais uma vez ele nesse blog - deixou de ser ferramenta decisiva numa escolha ou num juízo. O que dizer do coração, da intuição, do silêncio que revela, deixando os sentidos livres para manifestações inconscientes e espontâneas? Estão recolhidos, esquecidos no porão das vontades sinceras.
posted by .pin.
9:48 PM
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Segunda-feira, Dezembro 12, 2005
Quanto vale uma boa história?
Uma vida é uma história, e o que contamos dela é sempre algum tipo de ficção. A história de uma pessoa pode ser rica em aventuras, reflexões, frustrações ou mesmo pode ser insignificante, mas sempre será uma trama, da qual parcialmente escrevemos o roteiro. Freqüentar histórias imaginadas por outros, seja escutando, lendo, assistindo a filmes ou a televisão, ou ainda indo ao teatro, ajuda a pensar a nossa existência sob pontos de vista diferentes. Habitar essas vidas de fantasia é uma forma de refletir sobre destinos possíveis e cotejá-los com o nosso. Às vezes, uma história ilustra temores de que padecemos, outras, encarna ideais ou desejos que nutrimos, em certas ocasiões ilumina cantos obscuros do nosso ser. O certo é que escolhemos aqueles enredos que nos falam de perto, mas não necessariamente de forma direta, pode ser uma identificação tangencial, enviesada.
(...)
Histórias não garantem a felicidade nem o sucesso na vida, mas ajudam. Elas são como exemplos, metáforas que ilustram diferentes modos de pensar e ver a realidade e, quanto mais variadas e extraordinárias forem as situações que elas contam, mais se ampliará a gama de abordagens possíveis para os problemas que nos afligem. Um grande acervo de narrativas é como uma boa caixa de ferramentas, na qual sempre temos o instrumento certo para a operação necessária, pois determinados consertos ou instalações só poderão ser realizados se tivermos a broca, o alicate ou a chave de fenda adequados. Além disso, com essas ferramentas podemos também criar, construir e transformar os objetos e os lugares.
tirado de Fadas no divã - Psicanálise nas histórias infantis
:)
posted by .pin.
3:51 PM
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